Inflação: Agere Non Loqui (28/05/76)

Qua, 19 de Outubro de 2011
Seção:
Categoria: Eugênio Gudin

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 *Eugênio Gudin Filho

 

O governo reivindica – com justo fundamento – o mérito de “manter sob controle” a taxa inflacionária, malgrado as vicissitudes por que vem passando conjuntura econômica nacional.

 

Não foi possível estabilizar os preços em 1975. As taxas de inflação mantiveram-se no ritmo que, a partir de 1973, vem denunciado um surto inflacionário adicional. O surto não se verificou somente aqui. Em alguns países como a Grã-Bretanha e – muito pior – a Argentina, a taxa agravou-se consideravelmente (de 19% para 26% na primeira e de 40% para 110% na segunda).

 

Mas a tendência geral no mundo ocidental foi de declínio da inflação.

 

No Japão a taxa inflacionária, que subira de 0,8% em 1972 para 15,9% em 1973 e 31,3% em 1974, caiu para 3% em 1975! Custo de vida praticamente estabilizado nos últimos 6 meses. De outro lado, o produto nacional bruto, que subira 9,9%, caiu para “menos” 1,2% em 1974 e para “mais” 2% em 1975. Assim também, o desemprego aumentou. A taxa de emprego (na indústria de transformação) passou de menos 0,4% em 1974 para menos 5,3% em 1975. Foi o preço pago pelo Japão para erradicar (não simplesmente controlar) a inflação.

 

Na Alemanha a alta dos preços de atacado dos produtos industriais que atingira 13,4% em 1974, baixou para 4,7% em 1975, enquanto o PNB, que já caíra de 5,1% em 1973 para 0, 4, % em 1974, caiu “menos” 3,6% em 1975. O Nível de emprego na indústria caiu de 2,5% em 1974 para “menos” 6,4% em 1975.

 


Na própria Itália, que passa por tão grave crise política, a inflação baixou de 24% em 1974 para 12% em 1975, ao mesmo tempo em que o déficit de seu balanço de pagamentos diminuiu consideravelmente.

 

Nos EUA a crise de recessão já foi dominada, esperando-se para o ano corrente uma taxa de inflação que não irá além de 5% a 6%, com previsão de melhoria em 1977! A taxa de desemprego também deve cair par cerca de 6%,

 

Os efeitos negativos da inflação sobre o desenvolvimento econômico são de três espécies, como se segue:

 

1) O primeiro é a incerteza quanto às disparidades entre os preços de venda dos produtos e os dos respectivos insumos. Se estes são mais atingidos pela inflação do que aqueles, especialmente quando os preços são fixados pelo CIP, a perspectiva de prejuízos ou de escassez de lucro não é animadora.

 

2) O segundo é a incerteza quanto ao custo final dos investimentos. Tanto maior quanto mais longo o prazo de execução (ficou célebre nos anos 60 o caso do orçamento da “ponte coberta”, da Light, que teve que ser duplicado mais de uma vez).

 

3) Talvez que a mais séria das repercussões da inflação seja a da incerteza quanto à correção monetária do capital da empresa. Se a correção não é efetivada, o crédito da empresa, sobretudo sua atratividade, é prejudicado. E se o é, com base nos índices de inflação dos anos anteriores, um eventual decréscimo da taxa presente de inflação faz com que os lucros (aos preços de venda atuais) sejam insuficientes para remunerar um capital reajustado nas bases anteriores mais elevadas.

 

A inflação torna-se assim o signo da incerteza além do risco (F. Knight).

 

Nesse sentido escreve Carlos Geraldo Langoni: “O resultado é o fenômeno da exacerbação das incertezas associadas às flutuações não previstas nas taxas mensais de inflação, que acaba por funcionar como mecanismo inibidor da realização de investimentos a prazo mais longo. Como, nos dois últimos anos, a variância mensal da inflação (além da sua magnitude) ampliou-se sensivelmente, o risco de investimentos para o setor produtivo também aumentou de forma desproporcional, o que, ao lado das restrições já conhecidas, impostas pelos Balaços de Pagamentos, ajuda a explicar por que a desaceleração de crescimento ocorreu justamente quando as pressões inflacionárias se tornaram mais intensas”.

 

A médio e longo prazo a inflação não incentiva o desenvolvimento, pela simples razão de que desestimula os investimentos.

 

O próprio Dr. Otávio Bulhões, inventor da “correção monetária”, declara que ela só funciona bem em uma inflação cadente. Porque por sua natureza a inflação é autopropulsora.

 

Muita gente boa, mais do que isso, muitos bons economistas sugerem canalizar disponibilidades e recursos do PIS-PASEP, através do BNDE ou outra via, para a compra de ações no mercado primário de capitais. Essa recomendação implica pensar que o mercado acionário não é procurado devido à carência de recursos.

 

Isso, a meu ver, é uma falácia. A debilidade da procura de ações das empresas não se origina do lado da demanda, isto é, da carência de dinheiro. Esse dinheiro está aí jorrando abundantemente no setor do mercado de imóveis (que se autodefende da inflação) e no das cadernetas de poupança, que também se defendem da dita inflação via correção monetária.

 

A debilidade da procura de títulos de empresas é devida à inatividade dos negócios dessas empresas, minadas direta ou indiretamente pela inflação, a incerteza e o risco, além do CIP supra-referido.

 

Acabe-se com a inflação, mesmo à custa de dois anos de alguns sofrimentos (ver casos do Japão e Alemanha supracitados), e o dinheiro afluirá naturalmente dos imóveis e das poupanças, onde ora abriga, para as Bolsas de Valores.

 

Um meu saudoso e muito querido colega da antiga Escola Politécnica – Bastos Tigre – procurou-me certa vez para prepará-lo para exame da cadeira de estabilidade das construções, porque lhe haviam dito que eu estudara bem essa matéria. Peguei dois livros que estavam sobre minha mesa e mostrei-lhe por onde teríamos de começar a estudar. Era a parte matemática. Aí Tigre me dizia: “Mas é justamente essa parte que eu não queria ter de estudar”. Ao que lhe respondi que isso era muito difícil, senão impossível. Ao que ele me retrucou (era o Bastos Tigre dos “Pingos e Respingos”). “Pois aí é que está... bilidade!”.

 

O caso é parecido com o da nossa atual conjuntura. Queremos externar a inflação por processo indolor. Continuamos a consumir como dantes – gasolina, automóveis, como tudo mais em prestações de três anos -, gastando não só o que ganhamos hoje, mas o que sacamos sobre o futuro.

 

Além de preservar o ambiente eleitoral.

 

Para ver como tenho razão, citarei aqui ninguém menos do que Mário Henrique Simonsen: “Do contrário necessitaria de alguém que me ensinasse a fórmula de combater a inflação com a economia superaquecida ou a fórmula de reduzir as importações nesse mesmo estado”.   (J.B, 14/03/76). Ou que “seria utópico imaginar que o Brasil pudesse escapar sem arranhões a toda essa tormenta internacional”.

 

De pleno acordo, ministro. Mas então, vamos aos arranhões.

 

Já o ilustre Ministro Reis Velloso não pensa bem assim, ao que parece, dizendo (fins de abril): “A inflação não é a preocupação mais importante para o governo este ano. A idéia de se adotarem medidas recessivas foi definitivamente afastada, como posição unânime de todo o ministério”.

 

Mas com o desenrolar dos acontecimentos acredito que “todo o ministério” esteja agora decidido a dar toda a prioridade ao controle à inflação. Está na hora.

 

Agere non loqui.

 

 

*Eugênio Gudin Filho (Rio de Janeiro, 12 de julho de 1886 - Rio de Janeiro, 24 de outubro de 1986) foi um economista brasileiro, ministro da Fazenda entre setembro de 1954 e abril de 1955, durante o governo de Café Filho.

 

Formado em Engenharia Civil em 1905 pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, passou a interessar-se por Economia na década de 1920. Entre 1924 e 1926, publicou seus primeiros artigos sobre Economia em O Jornal, do Rio de Janeiro.

 

Em 1944, o então ministro da Educação, Gustavo Capanema, designou Gudin para redigir o Projeto de Lei que institucionalizou o curso de Economia no Brasil. Nesse mesmo ano, foi escolhido delegado brasileiro na Conferência Monetária Internacional, em Bretton Woods, nos Estados Unidos, que decidiu pela criação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial (Bird)

 

Durante os sete meses em que foi ministro da Fazenda (1954-1955), promoveu uma política de estabilização econômica baseada no corte das despesas públicas e na contenção da expansão monetária e do crédito, o que provocou a crise de setores da indústria. Sua passagem pela pasta foi marcada, ainda, pelo decreto da Instrução 113, da Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc), que facilitava os investimentos estrangeiros no país, e que seria largamente utilizada no governo de Juscelino Kubitschek. Foi por determinação sua também que o imposto de renda sobre os salários passou a ser descontado na fonte.

 

 

Ricardo Bergamini
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