O Castrismo no Brasil (2010)

Josino Moraes Latin America Economic Researcher

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(1) Ele surge no Brasil logo após a tomada de poder por Fidel Castro e seu grupo em 1959. O comunismo avançava rapidamente no mundo e sua ponta- de-lança na America Latina era Cuba.

 

(2) A primeira manifestação da intervenção cubana direta no Brasil, se não me falha a memória, foram as Ligas Camponesas de Julião, em Pernanbuco, em 1960/61[1] . A base teórica, das idéias, já havia sido aqui plantada pelos partidos comunistas clássicos fundados no início do século XX, desde Lenin e sua posterior União Soviética. Portanto, não foi nada difícil semear aqui essas idéias esdrúxulas. Ademais, previamente, o solo já estava devidamente adubado com as idéias do positivismo de Augusto Comte e sua defesa de ditaduras pessoais.

 

(3) Em síntese, o castrismo foi a manifestação concreta do chamado marxismo-leninismo na America Latina.

 

(4)Em 1961, o então presidente Jànio Quadros, eleito constitucionalmente pelo voto direto, condecorou Che Guevara enquanto condenava o Congresso Nacional devido à sua ânsia por poder absoluto. Posteriormente, viria a renunciar. O paradoxal é que no caso brasileiro, e creio que em quase toda a America Latina, existe o que se poderia chamar de um presidencialismo imperial, considerando-se os excessivos poderes do Executivo, frutos dos ideais ditatoriais do positivismo.

 

(5)A renúncia de Jânio Quadros acelerou a intervenção castrista no Brasil. Assumiu então, contra a vontade das Forças Armadas, seu vice, João Goulart, vulgo Jango Goulart,  herdeiro político de Getúlio Vargas e cunhado de Leonel Brizola. Os sindicatos, as Ligas Camponesas e demais entraram em seu apogeu. Militares subalternos, sobretudo os sargentos, ligados ao castrismo iniciam movimentos isolados de rebelião. Os marinheiros, no Rio de Janeiro, idem. Era a ameaça castrista a pleno vapor. No seu ápice, ela conduziu ao desfecho de 1964, quando as Forças Armadas tomaram o poder.

 

(6) Lembro-me  de ter participado de um comício, cujas figuras centrais eram Jango Goulart e seus aliados, na Central do Brasil, Rio de Janeiro, em 13 de março de 1964. Viajamos em um avião militar desde São Paulo. Lembro-me também de ter participado junto com Jose Serra – atual candidato a presidência em 2010 - e outros, de uma reunião na ABL (Associação Brasileira de Imprensa) cuja figura central era Luis Carlos Prestes, o maior líder histórico do comunismo brasileiro. (7) Com o novo cenário – os militares no poder em 1964, as forças vinculadas ao castrismo se retraíram e passaram  à clandestinidade. Na época, eu, com apenas 22 anos,  estava no ultimo ano de engenharia na Universidade Mackenzie – universidade esta fruto do trabalho de presbiterianos americanos- na Rua Maria Antônia, no centro de São Paulo.

 

(8) Em frente à minha universidade, encontrava-se a Faculdade de Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, principal berço da ampla gama de marxistas locais – comunistas clássicos (pró-soviéticos), trotskistas e a nova leva de castristas, na qual me incluo, que viria a prevalecer sobre todas as demais tendências. Essa faculdade foi berço, inclusive, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso um dos teóricos da teoria da dependência, cujo verdadeiro pioneiro foi o alemão Andres Günther-Frank. A teoria da dependência era apenas um eufemismo, com ares acadêmicos, para as teses leninistas do imperialismo.

 

(9) O castrismo também elaborou o seu “corpo teórico” atavés da teoria do foco, de um jovem francês de nome Régis Debray. Na verdade, tratava-se apenas de uma teoria político-militar que partia da guerrilha como o motor da guerra. Debray apenas colocava no papel as principais idéias, basicamente militares, de Fidel, Guevara, etc.

 

(10) O castrismo foi fascinante para nossa juventude, pois elele nos oferecia a possibilidade concreta, a curto prazo, de nosso objetivo: a tomada de poder e a implantação do modelo do comunismo soviético como solução para os problemas sociais. De quantas asneiras foram suscetíveis os jovens da América Latina.

 

(11) Após a tomada do poder pelos militares  em 1964, a atividade na Rua Maria Antonia se tornou febril[2]. Apesar da precariedade das nossas condições, começamos a pensar num movimento de guerrilha urbana. Logo mais, viríamos a “cair” e ficamos conhecidos publicamente como os guerrilheiros do ABC (Santo Andre, São Bernardo e São Caetano, o entorno da
grande São Paulo). O grosso do grupo foi preso, mas eu consegui escapar passando então para a mais completa ilegalidade. Fui condenado, à revelia, a quatro anos de cadeia.

 

(12) Nessa época, creio ter feito contato, pela primeira vez, com uma agente do serviço secreto cubano. Tratava-se de uma francesa de codinome Thérèse. Na flor de minha juventude, e jorrando testosteronas por todos os poros não havia espaço no meu cérebro para tal pensamento. Olhando o passado, o que me impressiona foi a eficiência do serviço secreto cubano, facilitado, obviamente, pela simpatia que o movimento despertava em grande parte do Primeiro Mundo.  Darei mais detalhes adiante.

 

(13) Na clandestinidade, fomos fazendo novos contatos -dezenas de movimentos castristas que pipocavam pelo Pais – até encontrar um novo centro político: Leonel Brizola, cunhado de Jango Goulart e herdeiro político de Getulio Vargas, que estava em perfeita sintonia com Fidel e sua camarilha. O Comitê Central se estabeleceu em Montevidéu, Uruguai.  Brizola já havia então estabelecido sérios vínculos com Havana, e, creio até, que Che Guevara esteve ali, com ele, pouco antes de sua entrada na Bolívia.

 

(14) Sob a influencia de um velho líder comunista, José Maria Crispim, deputado constituinte em 1946, criamos um grupelho de nome Frente Revolucionária Brasileira e saímos à procura de contatos. Na época, José Maria era de fato um trotskista.  Isso no levou à então nascente Brasília e ao prefeito cassado João Menezes, de Imperatriz, às margens do Rio Tocantins, no Maranhão. O lugar nos pareceu perfeito para dar partida a um foco guerrilheiro. Retornamos a São Paulo.

 

(15) Em São Paulo, tomamos contato com o ex-sargento Onofre Pinto que citava o Movimento Nacionalista Revolucionário, sob o comando de Brizola, como o caminho que mais nos agregava – com centro político em Havana, ainda que ele já articulasse a criação da VPR (Vanguarda Popular Revolucionaria). A VPR recrutou um capitão do exército de nome Carlos
Lamarca, que veio a tornar-se um nome nacionalmente conhecido. De São Paulo, parti sozinho para Montevidéu por terra, passando a fronteira em Jaguarão, Rio Grande do Sul.

 

(16) Depois de alguma dificuldade, entrei em contato com o estado-maior deBrizola: Neiva Moreira (ex-deputado federal pelo Maranhão), coronel Dagoberto Rodrigues (ex-chefe dos Correios e Telégrafos) e Paulo Schilling (economista gaúcho). Estes os principais, de que me lembro. Jango Goulart, ex- residente deposto, também exilado ali, não participava de nada.

 

(17) Fui encaminhado para um “aparelho” - uma casa, no caso - em Pocitos, bairro elegante à beira da praia. Éramos cerca de cinco homens, dentre eles um equatoriano de codinome Jayme, bastante ligado aos cubanos. Jayme já havia atuado no Rio de Janeiro, onde esteve inclusive temporariamente preso Logo, foi-me fornecida uma identidade falsa. O plano era aguardarmos os passaportes falsos para nossa posterior viagem para treinamento militar em Cuba.  Isso demorou cerca de 6 meses.

 

(18) Na nossa idade e tanto tempo livre, as namoradas uruguaias circulavam pela casa. Os Tupamaros estavam em seus preâmbulos. Lembro-me de, junto com companheiros uruguaios, fazermos alguns treinamentos de condicionamento físico, como marchas forçadas, por exemplo. (19) Brizola se encontrava confinado e isolado pelas autoridades uruguaias num
elegante balneário de nome Atlântida. Obviamente, as autoridades uruguaias percebiam suas atividades ilegais na condição de exilado político. Ele queria me
ver. Fui até lá. Apesar de usar outro codinome à época, ele bateu seus olhos em mim e exclamou: paulista! Éramos inimigos históricos, desde que Vargas, seu patrono e gaúcho como ele, nos massacrou politicamente em 1930 e nos deu seu tiro de misericórdia em 1932.  Na saída do balneário, a polícia uruguaia me garfou e tirou as impressões digitais de meus dez dedos.

 

(20)  O dolce far niente da vida em Montevidéu era prazeroso, obviamente. Lia os jornais diários num famoso café de nome brasileiro, Sorocabana, no começo da principal avenida da cidade, de nome 18 de Julio, próximo à Ciudad Vieja; comia a melhor carne bovina do mundo – gado Hereford - em suas parrilladas e, às noites, ouvia a mais sofisticada música da primeira metade do século XX o mundo, i.e., o tango.  E, para arrematar, terminava as noites nos braços da minha Flaca (forma carinhosa de referir-se aos magros, no espanhol platino). Logo, chegou a noticia: o passaporte, falso, obviamente, estava pronto e eu devia viajar.

 

(21) A viagem a Cuba em 1966, devido a sanções econômicas,  imposta pelos Estados Unidos a Cuba, era um verdadeiro périplo : Montevidéu-Buenos Aires-
Dakar-Paris-Praga-Vancouver- Havana[3]. Alguns chegaram a ir ate Moscou. Em Cuba, se daria a Conferencia Tricontinental de los Pueblos de Asia, Africa e America Latina. Brizola me havia nomeado chefe da delegação brasileira. Fui recebido magnificamente, e levado ao elegante hotel de nome Habana Libre, próximo ao Malecón, onde se realizaria a conferência. Foi o hotel mais elegante que pude freqüentar na minha vida. A China de então, não havia encontrado ainda seu atual caminho de desenvolvimento econômico baseado no livre
mercado e também participava.

 

(22) O clima era de alegria e vitória. O lema era: “Criar um, dois, três Vietnãs!” A agitação no hotel era total. Mulheres bonitas circulavam no hall e no lounge do hotel.  De certa feita, estava conversando no meu quarto com Max da Costa Santos, ex-deputado federal e homem de confiança de Brizola, quando, subitamente, entrou Salvador Allende para falar com Max. As reuniões se sucediam por todos os cantos do hotel. A flora e a fauna dos “perfeitos idiotas latino-americanos” encontravam-se ali muito bem representadas. Lembro-me de Mario Vargas Llosa circulando com sua esposa, então grávida, pelo hotel.  Lembro-me também de muitos africanos de língua francesa.

 

(23) Havia um mistério no ar sobre a ausência de Che Guevara na conferência e seu paradeiro. Só posteriormente o mundo veio a saber da intervenção diretíssima de Cuba na Bolívia.

 

(24) Durante o dia, o trabalho era dividido em comissões ou painéis sobre diferentes temas. Obviamente, os diferentes temas versavam basicamente sobre as diferentes ameaças do “imperialismo ianque”. Almoçávamos em diferentes pequenos restaurantes dentro do hotel. Foi ali que conheci Mabel, uma bailarina uruguaia do grupo de balé de Alicia Alonso   por quem eu viria a me apaixonar [4]. Creio que foi meu segundo contato com o serviço secreto cubano. As noites eram de lautos jantares ao som de orquestras cubanas com mulatas de formas insinuantes à frente.

 

(25) Ao final da conferência e de uma recepção faustosa com El Cavallo, Fidel, me informaram que eu iria com um seleto grupo de latino-americanos a um campo de treinamento militar. Viajamos, provavelmente, num avião militar soviético sem pressurização. Havia um buraco redondo na janela.  O barulho era infernal. Ao tentar aterrissar, o piloto errou e abortou a manobra.Felizmente, na segunda tentativa, tudo correu bem.

 

(26) A estrela do grupo era Turcios Lima, guerrilheiro guatemalteco. Podia-se perceber que Fidel e seu entourage estavam encantados com sua figura. Era um homem esbelto, alto e espigado, de fisionomia européia. Algum tempo após o retorno aos nossos países, soubemos de sua morte.

 

(27) Parece-me que a idéia era que nos familiarizássemos com os armamentos de infantaria mais modernos, como novos fuzis, bazucas, etc, e imbuir- nos de nossa força e espírito de vitória. A grande novidade era uma nova metralhadora antiaérea chinesa chamada de quatro bocas. Ao invés das metralhadoras convencionais, ela tinha quatro linhas concomitantes de fogo, dispostas em forma de um quadrado Mesmo com silenciadores de ouvidos, seu barulho era infernal.  Hoje em dia, creio que se tratou de um projeto fracassado da engenharia militar chinesa.

(28) Certa vez, me lembro de que nos encontrávamos eufóricos sobre um morro observando manobras de tanques - obviamente, velhos tanques americanos da segunda guerra, quando Raul Castro, ao me ser apresentado, suspirou fundo: Ah..... o Brasil. Era o grande sonho castrista, obviamente, uma vez que temos fronteiras com quase todos os países da região.

 

(29) Obviamente, não sei precisar o local da performance na ilha, mas não devíamos estar longe de Guantánamo pois, certa vez, fomos levados até a costa para avistar  a presença física do “imperialismo americano”  e aquele “ultraje” aos cubanos.

 

(30) Retornamos a Havana e o grupo se dispersou. Eu fui encaminhado para um “aparelho” onde já se encontravam vários amigos brasileiros. O grosso de nosso grupo era de ex-marinheiros. Marco Antônio Lima era um deles. Havia um civil gaúcho, me lembro.  A programação era para um treinamento de fabricação de bombas caseiras nos arredores de Havana e manuseio do fuzil, obviamente a arma principal – desmontagem e conhecimento de todas suas partes. O responsável máximo pelo nosso grupo era um oficial de codinome Fermin. Através da internet, um oficial da inteligência brasileira da época, me disse tratar-se de um coronel cubano.

 

(31) As noites, eu tomava a guagua – ônibus - e escapava para o apartamento de Mabel. Retornava de madrugada, antes de nossa saída para o treinamento. Obviamente, o agente cubano que cuidava de nosso grupo acompanhava minuciosamente  todos meus movimentos. De certa feita, inclusive, quase cruzei com ele no apartamento.

 

(32) Logo mais, veio o treinamento nas montanhas.  Éramos um grupo de aproximadamente 11 – fixação de Brizola com seus grupos dos 11, ou, simplesmente, uma lógica militar?  O treinamento era bastante duro. O comando ficava por conta de um guajiro – homem do campo - que se dizia, e, provavelmente era de fato, um tenente do Exército Cubano.  Aprendíamos a montar uma tenda – um acampamento – e os princípios elementares da sobrevivência no mato. Às noites, um ficava sempre escalado como sentinela. O cansaço do sentinela devia ser muito forte, pois me lembro que, de certa feita, quando eu estava de sentinela, quase troquei tiros com um companheiro.

 

(33) Acordávamos com o raiar do sol. Não me lembro exatamente, mas, creio que tomávamos apenas um simples café preto com muito açúcar branco – esteio fundamental, junto com o arroz, de nossas calorias. Logo, saíamos para a marcha. Havia um rodízio para levarmos a mochila dos mantimentos para passarmos o dia. Tratava-se de um sobre esforço considerável para o homem da vez. Ademais, carregávamos um velho fuzil Garant da Segunda Guerra, extremamente pesado.  Às tardes, creio, cozinhávamos feijão. Proteína animal era escassa [5].

 

(34) A mochila de mantimentos era muito pesada, pois me lembro que um dia, na subida de uma estradinha de terra, o Macarrão, ex-marinheiro, sentou-se no barranco e se pôs a chorar, sentindo sua impotência. Eu, naquele então, com excelente condição física assumi a mochila e continuamos a marcha. (35) Em algumas oportunidades ficávamos perto do acampamento e fazíamos treinamentos de pontaria com o fuzil belga FAL. O Capitani, ex-marinheiro, e eu nos revelamos os melhores atiradores do grupo. Posteriormente, em algumas ações armadas no Brasil, Capitani se tornou  famoso como excelente atirador. De certa feita, Capitani tinha uma ferida entre as nádegas, algo como um furúnculo, e foi difícil convencê-lo, dado seu nível cultural, que eu teria que ajudá-lo com alguma pomada.



(36) Findo o treinamento retornamos a Havana, e logo, um a um a Montevidéu. Na minha santa ingenuidade, escrevi, desde Montevidéu, cartas a Mabel, não me conformando com a separação. Era, no entanto, uma página virada.

 

(37) Meu destino era Brasília e meu contato era Flávio Tavares (“Doutor Falcão”), gaúcho, jornalista político famoso à época, do Jornal Última Hora, de Samuel Weiner, e homem de confiança de Brizola. A idéia era darmos partida ao projeto Imperatriz. Naqueles dias tensos de Brasília, e antes de minha artida para nosso objetivo, eu e Vera Kassov, uma judia gaúcha esposa de Flavio, nos apaixonamos [6] .

 

(38) Flavio Tavares escreveu um livro em 1999 (!), Memórias do Esquecimento, verdadeira apologia do castrismo no Brasil, onde me cita, trocando meu nome por uma versão mais popular - Jesuino - e contando que, em Imperatriz, eu teria me apaixonado por uma retardada mental e muda! Vejam o caráter  desse homem. Ele, obviamente, com pelo menos duas fartas aposentadorias públicas e uma especial do INSS como perseguido político, vivendo hoje, segundo noticias, na mais sofisticada praia do pais, Búzios,  pode se dedicar a esse diletantismo [7] . Ademais, em torno de 1972, em Santiago, Chile, o falecido Onofre Pinto–VPR, que se hospedava em meu apartamento com direito à chave, me contou que ele espalhava a noticia aos quatro ventos que eu era agente da CIA .

 

(39) Cabe aqui uma ressalva. Ao revisar partes do livro de Flavio nos dias de hoje, observo tratar-se de um depoimento valioso, de dentro do próprio movimento castrista e por isso mesmo inquestionável, sobre a intervenção castrista no Brasil. Ali, alem de sua parte ficcional e romanesca, há muitos detalhes que eu desconhecia. (40) O quadro em Imperatriz, às beiras do Rio Tocantins, não era nada animador. Nossos contatos eram um ex-dirigente sindical dos ferroviários – O Velho - e um homem, jovem, de confiança de João Menezes , ex-prefeito local
cassado, homem ligado a Neiva Moreira, origem do projeto do foco em questão. O Velho teria sido treinado em Cuba, segundo o livro de Flavio. Havia também a figura do Russo, ex-marinheiro, que estava um pouco mais ao norte, em Marabá, que veio a falecer de malária.

 

(41) Eu e o Antonio Duarte, ex-marinheiro, irmão de José  Duarte, chegamos em Imperatriz em uma Kombi de minha família . Instalamo-nos em uma pensão e nos fazíamos passar por taxistas.  Tínhamos apenas um concorrente e nosso trabalho basicamente se dava às tardes levando homens ao bordel. Eu guiava pelas ruas da cidade e Antônio gritava pela porta traseira aberta da Kombi: Cacau, Cacau (o nome do bordel).  Ademais, havia um barco para reconhecimento da área que funcionava como um segundo disfarce, fazendo fretes pelo rio. Quase não me lembro de policiais ali, naquele então. Deveriam ser muito poucos. O lugar era muito violento e quase todos os dias apareciam um ou dois cadáveres pelas ruas. No Cacau, me lembro de haver presenciado troca de tiros.

 

(42) O Velho se encontrava instalado com uma nova e numerosa família junto ao rio. O inusitado é que ele já havia encontrado como companheira uma menina de 13 anos, segundo nos informaram, filha de sua companheira formal. Ele, praticamente, se negava ao contato conosco. Queria sossego e os prazeres finais do sexo em sua velhice.

 

(43) O quadro era desalentador, não tínhamos avançado sequer um milímetro.  Certa vez, enviei um de nossos homens a Brasília e ele na sua viagem vendeu seu revólver. Eu e o Antonio Duarte decidimos retornar a Brasília.

 

(44) Apesar de todas as adversidades, o retorno a Brasilia significava a alegria do reencontro com Vera. No entanto, ao chegar, Flavio me apresentou um projeto maluco de treinamento de um grupo de amigos de Uberlândia, Minas Gerais, na fabricação de bombas caseiras. Parti para lá. Na primeira reunião, havia um grupo enorme, algo assim como umas 15 pessoas e pressenti o perigo: havia ali algum inimigo. Não consegui dormir aquela noite e antes do amanhecer parti para São Paulo. Escapei por um triz.

 

(45) Logo mais, veio a noticia da queda de nosso centro em Brasília, a partir da prisão de Flavio, naturalmente. Obviamente, quando os militares me perderam, resolveram desfazer o barraco. Vera me avisara sobre meu retrato falado com ênfase num canino saliente do lado esquerdo. Através de amigos do PCB (Partido Comunista Brasileiro), fui encaminhado a um dentista que me extraiu aquele precioso e saudável dente. Nas andanças anteriores, em Londrina, Paraná, já me haviam extraído as amígdalas.

 

(46) Vera tinha uns parentes no Bom-Retiro, bairro típico de judeus paulistanos, e conseguimos nos reencontrar naquele então. Ela tinha uma pequena filha com Flávio de nome Isabela. Não havia saída! (47) Com a ajuda de amigos ainda tentei me manter em São Paulo, trabalhando com minha identidade falsa – Carlos- como engenheiro estrutural, ou quase. No entanto, o quadro era desesperador. Os jornais me atribuíam ações mirabolantes e me tornei, sob o codinome de Juca, um dos homens mais procurados do País pelos militares. Decidi-me pela saída do País. Fui para Montevidéu e, aconselhado por amigos dali, ao Chile, onde se encontravam o grosso de nosso grupo. Em Montevidéu, já naquele então - 1968, encontrei um arquiteto trabalhando como cobrador de ônibus! Não havia trabalho. Há coisa de uma década, o Uruguai era conhecido como a Suíça da America.   Era a tragédia da America Latina que já então se desenhava.

(49) No Chile, formalizei meus estudos finais de engenharia e trabalhei como engenheiro. Ali, tive contato, pela terceira e última vez com o serviço secreto cubano, através de um casal de belgas – ele de origem flamenga e ela francesa. Houve algum sexo com a moça. Naquele então, já percebia mais claramente essa questão. Os cubanos tinham verdadeira fixação com o perigo da infiltração de seus inimigos.

 

(50) Em torno de 1970, no meu apartamento no centro de Santiago, tive duas visitas inesquecíveis. A de uma jovem, quase menina, Jeny Vaitsman, namorada de Antonio Duarte que se encontrava confinado pelas autoridades chilenas em Antofagasta, norte do Chile e a de um líder sindical bancário de nome Palhano, que descia de Cuba, após treinamento. Logo após sua entrada no Brasil, ele desapareceu e seu principal contato era com o Cabo Anselmo. Ali surgiu a primeira duvida sobre a lealdade de Anselmo, alem de noticias de um ex-marinheiro de nome Edgar que na prisão teria percebido a questão. A pessoa mais indicada para precisar esses fatos é Jose Duarte.

 

(51) A intervenção cubana no Chile acredito estar por demais documentada. No entanto, queria salientar aqui o que mais me chamava a atenção na época: O GAP (Grupo dos Amigos do Presidente), guarda pessoal de Allende. Eram homens treinadíssimos pelos cubanos que andavam em potentes carros Fiat em alta velocidade pelas ruas de Santiago. Foi a tentativa mais audaciosa do castrismo na America Latina. De ali, naqueles dias de 1973, escapei pela embaixada cubana, então aos cuidados do governo sueco, para a Suécia.

 

(52) Em torno de 1975, com a ajuda de meu então amigo Fernando Gabeira, candidato ao governo do Rio de Janeiro em 2010, tive meu ultimo encontro com Vera na maravilhosa cidade alemã de Colônia [9].

 

Notas:  

[1]  De certa feita, em torno de 1975, cruzei com Julião no Instituto de Estudos Latino-Americanos em Estocolmo, onde então eu trabalhava. Provavelmente, foi ele quem enviou o primeiro grupo de brasileiros para treinamento em Cuba. Possivelmente, apenas para um treinamento político, não para o treinamento de guerrilha, propriamente dito. Ele nos contou a seguinte historia sobre o relato de seus homens quando de seu retorno ao Brasil: “Eles falam e nos entendemos tudo, nos falamos e eles não entendem nada”. Eis uma curiosidade fonética entre o português brasileiro e o espanhol cubano.

 

[2] A semântica, no caso, nos oferece um amplo leque de palavras: Revolução ou Contra-Revoluçâo de 1964, nas palavras dos militares vitoriosos, ou golpe de estado nas palavras de castristas e afins. No meu entender, o que houve ali foi uma defesa do status quo do Estado brasileiro, que apesar de seu lado positivo – impedir o avanço do castrismo no continente, defendia também a permanência de seus privilégios e de outros setores da nomenklatura local.

 

[3]   Na America Latina, onde se estimula o sentimento antiamericano se utiliza a palavra bloqueio para isso, muito mais forte do que sanções. Graças ao meu amigo americano, Lou Riggio, pude corrigir essa minha falha a tempo. Uma questão importante de semântica. Bloqueio seria um ato de guerra, bloqueando todo o comercio exterior, etc. No caso, houve apenas proibição de americanos e empresas americanas de fazer negócios com a ilha.

 

[4] Esse grupo de balé, menina dos olhos de Fidel, constituiu-se numa das maiores armas de propaganda política da Cuba comunista [5] Digo isso pois me lembro muito bem que um dia, na hora do almoço, “apareceu” uma enorme frigideira e um leitão para ser frito. Foi uma verdadeira festa para nós.

 

[6] Cabem aqui duas observações. Primeiro, na minha geração e condição social na Améirica Latina, grande parte de nossas gerações foi criada, a partir da adolescência, dentro de bordéis. O sexo era simplesmente uma brincadeira que trazia simplesmente prazer. Marilyn Monroe, apesar de ser criada no hemisfério norte e em outras condições me parece tinha essa mesma percepção do sexo como simples fonte de prazer. Segundo, a impossibilidade de constituirmos casais normais e a tensão própria da possibilidade de morte iminente exacerbava o quadro. Mas, às vezes, tudo isso nos traia e nos apaixonávamos.

 

[7]   Essas aposentadorias públicas múltiplas e, às vezes, ate hereditárias, são uma verdadeira aberração na geração de novos privilégios. A tudo isso foi adicionado, ademais, essa nova imoralidade: aposentadorias, quase sempre milionárias, aos que queriam transformar o Brasil em uma enorme Cuba!

 

[8] Onofre, ex-militar e um fanático pela teoria do foco, preparava em Pernambuco, apoiado pelos cubanos, a última e trágica tentativa no caso brasileiro. Apesar de alertado por companheiros da infiltração do cabo Anselmo, que sob tortura havia trocado de lado, insistia na idéia. Foram todos sumariamente fuzilados. Pouco antes dos acontecimentos de setembro de 1973 no Chile, Onofre conseguiu reunir um grupo de uns 7 homens e tentou entrar no Brasil via Argentina. Foram também sumariamente fuzilados em algum ponto entre as fronteiras. Nunca se saberá de que lado e onde foram enterrados esses corpos. Achei uma atitude de extrema crueldade por parte dos militares argentinos e/ou brasileiros, uma vez que a guerrilha de origem cubana já estava devidamente extinta, ocorrendo apenas essas curiosidades. Era a cultura da America Latina que se impunha

 

[9]   Um amigo que teve acesso a esse original me questionou porque me refiro a Gabeira como ex- amigo. Quando éramos amigos íntimos, eu o chamava de Fernando ou compadre; hoje, como todos no Pais, eu me refiro a ele como Gabeira. Afinal, naquele então, em Estocolmo, cheirávamos juntos algumas carreirinhas de cocaína pura, de alta qualidade, através de alguma nota enrolada de 100 dólares. Em torno de 1985, um senhor, engenheiro alemão, apaixonado pelo trabalho fino com madeiras como eu, ao sentir o cheiro de cola quente espalhado pelo ar na marcenaria, me ensinou um velho ditado alemão: “Nada une mais os homens do que o gosto pela mesma cachaça”. Hoje, Gabeira se tornou um político profissional, deputado federal crônico, caríssimo para os "contribuintes" - eufemismo local para pagadores de impostos. Na minha historia de vida, a "cachaça" – as idéias políticas, no caso, sempre foram o grande divisor de águas.

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